A Retórica Oculta nas Teorias Pedagógicas

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Sejam bem-vindos a mais uma investigação a fundo.

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Hoje a gente vai abrir uma espécie de caixa preta de um processo pelo qual absolutamente todos nós passamos.

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Mas que, sabe, a gente raramente para para questionar.

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É sobre como as teorias sobre educação e o aprendizado são construídas

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e, mais do que isso, como elas são desenhadas especificamente para nos persuadir.

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Com certeza. E a base da nossa análise de hoje é uma dissertação de mestrado

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muito instigante da PUC do Rio de Janeiro.

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Foi escrita por Marcos José Gomes Cristovão.

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O texto explora a perspectiva do filósofo brasileiro Tarso Mazzotti

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e o foco é sobre como a argumentação, a análise retórica e as metáforas

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são, na verdade, as engrenagens ocultas dessas teorias pedagógicas.

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Isso, e eu estou super animada para essa discussão, porque subverte a nossa expectativa

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de que educação seja uma ciência exata, sabe, baseada em leis naturais e mutáveis.

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O nosso objetivo hoje não é ficar restrito aos muros das escolas.

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A missão aqui é revelar como qualquer sistema que se propanha nos ensinar algo,

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seja tipo uma nova metodologia corporativa, um curso de idiomas revolucionário

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ou uma teoria acadêmica, se apoia numa estrutura de persuasão formidável.

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Exatamente, porque ao entendermos isso, quem nos ouve ganha uma lente crítica, né?

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Uma lente para analisar qualquer método, qualquer doutrina ou suposta verdade

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que tenta nos conquistar no dia a dia.

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É um material fascinante por isso.

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É, e aqui vai uma provocação inicial para quem nos acompanha agora,

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dá aquele estalo na mente.

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E se os métodos de ensino aos quais a gente foi submetido a vida inteira,

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aquelas cartilhas, as fileiras de carteiras,

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não forem descobertas científicas puras e intocáveis?

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E se forem, na verdade, argumentos altamente persuasivos

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que venceram uma disputa histórica usando comparações imaginativas?

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Ok, vamos destrinchar isso.

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Como a gente pode enxergar pedagogia não apenas como uma prática de sala de aula,

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mas como uma ciência argumentativa?

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Para chegar nessa visão, a dissertação leva a gente até a base do pensamento do Masotti.

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Ele bebe muito na fonte de Jean Piaget,

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especificamente na ideia da lógica das ações e das significações.

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Segundo essa matriz, qualquer prática humana...

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Humana complexa, o que obviamente inclui educação, é composta por dois lados que não se separam.

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Dois lados interdependentes, né?

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Isso. O primeiro é o aspecto que ele chama de efetivo, ou seja, a ação crua, o ato de ensinar,

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a tentativa de alterar as crenças ou atitudes de uma pessoa lá na prática.

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Mas a ação pela ação é cega? Aí entra o segundo lado, o aspecto inferencial.

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Esse é o conjunto de teorias, de raciocínios que a gente cria para tentar explicar,

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organizar e prever como essa prática efetiva deve acontecer.

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Ah, então as teorias pedagógicas habitam exatamente esse espaço inferencial.

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Perfeito. Elas são discursos que tentam justificar por que uma prática deve ser feita de um jeito e não de outro.

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E é super interessante notar o que a filosofia da educação faz com essas teorias inferenciais, né?

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A nossa intuição comum seria pensar que a filosofia está lá para ditar as regras do jogo,

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para ser a bússola moral da escola e definir o que é o certo e o errado a ser ensinado.

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Sim, é o que quase todo mundo acha.

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Mas o texto do Cristovão, lendo o Masotti, mostra uma quebra de expectativa gigante aí.

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A filosofia da educação não é um tribunal ético.

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De forma alguma. E o motivo para isso tem raízes históricas bem profundas.

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O Masotti argumenta que não é papel dos filósofos da educação determinar os valores morais das escolas,

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porque esses valores já são definidos pela própria sociedade civil.

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Especialmente depois da Revolução Burguesa e da consolidação do Estado laico.

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E o texto até traz visões bem contrastantes para ilustrar como isso foge do controle filosófico, não traz?

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Traz sim. Ele cita Hegel, por exemplo.

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O Hegel via o direito civil como a formalização de uma ética

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que a sociedade já tinha estabelecido de forma racional nas suas interações.

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Por outro lado, a perspectiva de Marx, que também é mencionada,

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apontaria que esse mesmo direito civil é só a formalização dos interesses da classe dominante.

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Uma irracionalidade disfarçada para manter o status quo da burguesia.

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É importante deixar claro para quem está ouvindo que a gente não está aqui para dizer qual visão histórica está certa.

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Se a do Hegel ou a do Marx. O ponto crucial do Masotti é outro, né?

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Exato. Independentemente de qual leitura a gente adota, o ponto do Masotti fica intacto.

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A ética escolar é um reflexo das tensões e das disputas da sociedade.

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Não é algo ditado de cima para baixo por um filósofo numa torre de marfim.

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A filosofia da educação só entra no mérito ético quando esses valores começam a travar

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ou distorcer a própria pesquisa educacional.

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Mas espera aí.

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Se a ética do ensino é basicamente o resultado de quem ganha a queda de braço na sociedade

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civil, a filosofia não fica meio redundante nessa história toda?

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O que ela faz de fato?

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É aí que ela assume o papel mais vital dela.

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Na visão do Masotti, a filosofia da educação atua como um conhecimento metapedagógico.

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Metapedagógicos?

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Isso.

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Significa que ela sobe um degrau para examinar, dissecar e criticar os enunciados que os cientistas

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da educação e os pedagogos produzem.

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Ela não diz o que ensinar.

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Ela analisa como os teóricos tentam nos convencer dos métodos deles.

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Entendi.

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E ela usa ferramentas específicas para isso?

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Sim.

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Ela usa a tradição aristotélica, a análise lógica para ver se o argumento pára em pé,

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a dialética para entender o embate de ideias e, o grande foco aqui, a análise retórica.

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O trabalho é mapear como o discurso foi construído para gerar persuasão.

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Sabe, eu acho isso muito libertador para qualquer pessoa que consuma informação hoje em dia.

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Saber que uma teoria pedagógica ou até um método de produtividade do momento é no

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fundo um discurso tentando justificar uma afirmação.

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Isso tira aquele peso de aceitar a autoridade de forma cega, a gente deixa de ver métodos

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como leis da gravidade inquestionáveis e passa a encarar-os como propostas, argumentos

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que estão implorando pela nossa adesão e que podem ser testados.

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É uma mudança de postura intelectual tremenda.

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Com certeza.

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Mas para nos persuadir de algo tão abstrato quanto aprendizado, as teorias precisam de

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um truque.

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Aqui é onde a coisa fica realmente interessante.

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O texto explora em detalhes como a educação é um processo invisível, tipo ninguém vê

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uma sinapse se formando na cabeça do aluno.

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Ninguém vê, é totalmente abstrato.

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E como o cérebro humano tem dificuldade de operar só no vácuo da abstração, as teorias

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dependem de metáforas.

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Elas pegam esse processo invisível e comparam com algo físico, algo que o público já

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compreende bem.

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Eu fiquei fascinada com o exemplo histórico do Comênios na dissertação.

7:23

Ah, o Comênios é brilhante para ilustrar isso.

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O que é fascinante aqui é como uma única metáfora

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pode construir a arquitetura mental e física de séculos de civilização.

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O Comênios, lá no século XVII, é frequentemente chamado de pai da didática moderna.

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Ele tinha um desafio monumental.

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Que era ensinar muita gente ao mesmo tempo.

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Exato.

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Explicar como o ensino poderia ser feito em larga escala e de forma eficiente.

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E ele não tinha a neurociência moderna à disposição.

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Então ele olhou para a tecnologia mais avançada e transformadora da época dele.

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A prensa tipográfica.

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A máquina que estava mudando o mundo.

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Isso.

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E assim ele construiu a metáfora da didagrafia.

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Na visão teórica dele, a mente do aluno era essencialmente uma folha de papel em branco.

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Possuindo só o que ele chamava de semente de entendimento.

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O professor era a tinta e os tipos de chumbo da impressora.

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E o método era a prensa mecânica em si.

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Ou seja, o objetivo era imprimir os caracteres das ciências e da moral na mente dos estudantes.

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Literalmente carimbar o conhecimento.

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E o impacto prático disso é brutal quando a gente para para pensar.

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Não era só uma analogia poética bonitinha.

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Essa metáfora da tipografia justificou materialmente como a escola ia funcionar.

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Pensa bem.

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Se o professor é uma impressora de conhecimento, faz todo sentido colocar 30 alunos sentados

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em fileiras de frente para ele, recebendo a mesma impressão ao mesmo tempo.

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Justifica até a criação dos livros didáticos patronizados.

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Porque na visão do Comênios, se você colocasse livros diferentes na mesma sala, seria como

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misturar tintas diferentes na mesma página da prensa.

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Ia gerar borrões, polêmicas, distração.

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Nossa, é uma linha de produção gráfica aplicada a seres humanos.

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Exatamente o que a metáfora exigia.

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E é por isso que analisar a retórica é tão poderoso.

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A metáfora não só ilustra o pensamento.

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Ela limita o que pode ser pensado.

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Você não pensa fora da metáfora que você adotou.

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Mas a dissertação não para no Comênios, né?

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Ela traz um contraponto muito forte, séculos depois, com o John Dewey.

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Sim, o Dewey estava imerso num contexto tecnológico e científico totalmente diferente.

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Então ele optou por uma figura de linguagem diferente.

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Ele usou uma metonímia para construir a teoria pedagógica dele.

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Em vez de comparar a mente a um objeto inanimado, como o papel,

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ele defendeu que o ambiente educacional deveria ser um espelho da própria investigação científica.

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Uma abordagem muito mais ativa.

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Muito mais.

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Para o Dewey, o aluno não recebe uma impressão estática.

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Ele deve agir e investigar na sala de aula da mesma maneira que o cientista age no laboratório para descobrir o mundo.

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A escola vira um microcosmo do laboratório científico.

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É uma mudança de paradigma gigantesca.

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O foco sai do professor carimbando a mente do aluno

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e vai para o aluno interagindo com o ambiente para testar hipóteses.

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E a dissertação aponta que é exatamente dessas metáforas estruturais

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que nascem as maiores brigas na educação.

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Principalmente em torno da ideia do percurso, do caminho que o aprendizado deve fazer.

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O percurso é o campo de batalha definitivo das teorias pedagógicas.

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De um lado, a gente tem visões que derivam daquela lógica do Comenius,

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onde o percurso educativo é pré-determinado.

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O fim já está dado desde o início.

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É um trajeto linear que leva da ignorância ao conhecimento padronizado.

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E nessa visão, se algo dá errado...

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Se o aluno falha, a culpa nunca é do caminho em si,

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porque o caminho, o método, é considerado perfeito.

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A culpa é atribuída a algum fator externo.

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A família, a falta de atenção, uma interferência que quebrou a máquina.

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Mas e do outro lado?

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Do outro lado, teóricos que seguem a linha do Dewey

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ou certas correntes marxistas que o Masotti também menciona,

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enxergam o percurso como indeterminado.

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O caminho não está traçado previamente.

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Ele é contingente. Ele se faz ao caminhar.

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Dependendo das interações históricas e sociais de quem está aprendendo.

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Não são só diferenças de opinião.

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São sistemas inteiros de raciocínio colidindo.

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Isso levanta um ponto crucial para a nossa análise.

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Se a gente tem teorias construídas sobre metáforas tão diferentes

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que geram sistemas completamente opostos,

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como a gente sai desse labirinto?

12:01

Se eu defendo a metáfora da impressora e você defende a do laboratório,

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como a sociedade ou a ciência decide qual teoria é a verdadeira?

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A gente simplesmente bate boca até alguém ceder?

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Essa é a grande questão.

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E ela nos leva para o coração do que a filosofia chama de

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virada retórica, que é central no trabalho do Mazzotti. Durante muito tempo, a tradição ocidental viveu sobre o domínio do

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proposicionalismo. Tinha essa crença firme de que a filosofia e a ciência iam eventualmente descobrir verdades objetivas no mundo,

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entidades puras que existem

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independentemente de quem fala. A verdade estaria lá fora esperando para ser achada. Isso, mas a virada retórica

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impulsionada por pensadores como Shane Perelman e Stephen Tolman

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resgata a sabedoria dos sofistas gregos e a dialética de Aristóteles para dizer o seguinte, em campos não

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demonstrativos, como as ciências humanas e a educação, a verdade não é um tesouro escondido esperando para ser desenterrado. A verdade é

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negociada. Negociada através da linguagem. Exato. O conhecimento é o resultado de um diálogo,

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frequentemente um diálogo hostil e amistoso ao mesmo tempo,

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estabelecido por uma comunidade numa época específica e sempre condicionado pela linguagem e pelas técnicas de argumentação.

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E aqui a dissertação faz um paralelo que eu achei brilhante para ilustrar essa negociação.

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Ela coloca frente a frente a visão do Mazzotti e a do renomado filósofo alemão

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Jürgen Habermas. Os dois concordam num ponto fundamental.

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Nós só temos acesso à realidade por meio da linguagem e as reivindicações de verdade

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precisam ser testadas num debate público livre de coerção. Eles partem da mesma base. Mas a forma como eles

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enxergam o objetivo desse debate é o que separa os dois radicalmente.

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Pelo que eu entendi do texto, para o Habermas, o debate é tipo uma ferramenta de limpeza.

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Se a gente tiver uma situação ideal de fala, o debate vai varrer as falsidades e as

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ilusões retóricas, até sobrar uma verdade racional que já existiu objetivamente.

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É como limpar uma vidraça para ver o que tem do outro lado.

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Uma analogia excelente. O Habermas ainda mantém uma esperança na racionalidade

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universal que se revela pelo discurso.

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Já o Mazzotti, que é alinhado a virada retórica mais estrita, diz que não tem nada do outro lado da vidraça esperando pela gente.

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Para ele, o debate não revela a verdade. O debate

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determina a verdade. A verdade construída ali na hora. Sim, o significado das coisas e

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aceitação de uma teoria não dependem de uma correspondência mágica.

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com o mundo objetivo, mas sim da aprovação do auditório, e esse auditório

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julga os novos argumentos com base no que o Aristóteles chamava de endexon.

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O endoxon. Isso, o repertório de crenças, valores e opiniões que aquela

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comunidade já compartilha e aceita como razoável.

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Você tem que partir do endoxon para convencer as pessoas. É aqui que entra um

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conceito muito poderoso para entendermos como a gente consome conhecimento, o

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conceito de abdução, que foi formulado pelo filósofo Charles Sanders Peirce.

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Pensem como nós operamos diariamente. A abdução não é uma dedução matemática

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perfeitinha, ela é um salto criativo. Um chute embasado, digamos assim.

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Exatamente. A gente vê um resultado no mundo, por exemplo, uma escola que adotou

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um método onde as crianças ficam sentadas no chão e que aparentemente tem

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alunos muito criativos. Imediatamente a gente tenta explicar esse fenômeno

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chutando uma causa. Baseados nas nossas crenças prévias, no nosso endoxon, a

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mente cria uma hipótese explicativa provisória. E as teorias pedagógicas

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nascem exatamente desses chutes abdutivos. Sim, o teórico observa uma

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prática, usa uma metáfora poderosa como o laboratório do Dewey e constrói um

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sistema inteiro em cima desse salto lógico inicial.

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Se conectarmos isso a um panorama maior, fica claro que a retórica não significa

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que vale tudo. Não é porque a verdade é negociada e nasce de um chute criativo

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que qualquer teoria absurda vai ser aceita para sempre. O Mazotte Bigani é

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profundamente pragmático nisso. Ele não abandona a realidade prática, né?

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De jeito nenhum. Ele se apoia na lógica paraconsistente e nos princípios do

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pragmatismo da razão, como os delineados pelo matemático brasileiro Newton da

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Costa. A ideia é que a razão constrói a lógica que melhor atende às necessidades

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de um contexto histórico. Portanto, uma teoria pedagógica que nasceu de uma

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metáfora retórica só vai sobreviver e virar parte do conhecimento oficial

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daquela sociedade se ela passar no teste da realidade.

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A prática é o juiz final. A prática efetiva, a sala de aula real, é a

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contraprova inflexível da teoria inferencial.

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propõe que a mente é uma impressora e, na prática, os alunos não aprendem ou se

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revoltam contra o método, a teoria entra em crise. A lógica cede à razão prática.

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Então, o que tudo isso significa para o nosso dia a dia?

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A gente tem teóricos criando hipóteses baseadas em saltos criativos e metáforas

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visuais. Eles jogam isso na arena pública, usam a retórica para apelar aos nossos

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valores prévios e tentam ver o que sobrevive ao teste da prática.

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Quando quem está nos ouvindo é bombardeado por inovações, de métodos

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ágeis no trabalho a novos currículos escolares,

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o que a análise retórica nos oferece como ferramenta de defesa?

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A análise retórica se torna o nosso melhor detector de manipulação e a

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dissertação elucida isso trazendo um debate interno na própria área entre o

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Masotti e o Olivier Rebaud sobre o uso de eslógans.

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Os famosos eslógans.

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Isso. O Rebaud, em certo momento, tentou separar as metáforas dos eslógans como

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se fossem fenômenos completamente distintos, mas o Masotti demonstra como

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eles operam no mesmo ecossistema persuasivo, só que em escalas diferentes.

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Enquanto as metáforas, como a do Comênios, servem para organizar e

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estruturar teorias longas e complexas, os eslógans são as ferramentas do

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discurso difuso. Eles são ideias ultra condensadas feitas para o consumo rápido.

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A gente conhece muito bem esse território dos eslógans hoje em dia.

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A indústria da educação e do treinamento corporativo moderno é movida

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a eles. Expressões como o mindset de crescimento, aprender a aprender,

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gamificação do engajamento, ou a clássica o aluno como protagonista da

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sua própria jornada.

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Clássica.

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São frases de efeito que carregam uma aura de inovação inquestionável.

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Elas grudam no cérebro com uma facilidade assustadora e parecem

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óbvias demais para serem criticadas.

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E é exatamente nessa obviedade que mora o perigo que o Masotti aponta.

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Os eslógans são nocivos para o pensamento crítico porque a função

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primária deles é despolemizar o ambiente. A educação, por natureza, é um campo

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minado de contradições, dificuldades sociais, conflitos de interesse.

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Um eslógan eficiente varre tudo isso para debaixo do tapete.

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Ele mascara a complexidade.

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Ele empracota uma realidade incrivelmente árdua numa frase mastigada.

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fazendo com que qualquer resistência a ela pareça um retrocesso, um absurdo.

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Quem insã consciência seria contra o mindset de crescimento, por exemplo?

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A função da análise retônica é nos treinar para pensar os slogans,

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para quebrar essa casca de obviedade.

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E a ferramenta específica que o texto menciona para quebrar essa casca

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é encontrar a petição de princípio, correto?

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Que é basicamente uma falácia argumentativa maravilhosa e muito comum.

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É quando a pessoa usa como prova exatamente aquilo que ela ainda precisa provar.

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Definição irretocável.

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Ela assume que a conclusão já é um fato consumado nas próprias premissas do argumento,

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blindando a ideia contra questionamentos estruturais.

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Exato.

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Ao usar a petição de princípio, o autor do slogan tenta forçar o auditório

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a aceitar pressupostos filosóficos e políticos ocultos

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sem que haja nenhum debate sobre eles.

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A análise retórica entra aí como um bisturi.

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Ela vai dissecando a frase de efeito até revelar qual é a crença não dita que a sustenta.

20:47

E uma característica fundamental desse processo, que o Masotti reforça muito,

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é a imparcialidade metodológica.

20:53

Como assim imparcialidade nesse contexto?

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Quando um analista retórico olha para teorias concorrentes,

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digamos um método construtivista debatendo contra um método tradicionalista,

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o objetivo inicial dele não é levantar uma bandeira ideológica e gritar quem está certo.

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O trabalho é desnudar as armas persuasivas de todos os lados.

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É expor a estrutura da argumentação, as metáforas escolhidas

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e os valores que estão tentando sequestrar o nosso consentimento,

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para que possamos avaliar o que realmente está sendo proposto.

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Kissing teve fantástica de como o conhecimento é empacotado e vendido para a gente.

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A jornada que fizemos pelos conceitos do texto do Cristóvão

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muda completamente a nossa relação com o aprendizado.

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Aprender não é simplesmente sentar, abrir a cabeça

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e receber um download de fatos concretos do universo.

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A própria estrutura que entrega esse aprendizado, as cartilhas que usamos,

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os papéis que atribuímos a quem ensina e a quem aprende,

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tudo isso compõe um edifício retórico formidável.

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Tudo é retórica.

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A gente é guiado por metáforas potentes, como a Mente Folha em Branco do Comênios

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ou o grande laboratório social do Dewey.

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Urge está apenas tentando negociar uma nova verdade usando o que nós já acreditamos no fundo.

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É um conhecimento que devolve para a gente a agência, a autonomia intelectual.

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Com essa perspectiva, quem nos acompanha ganha um filtro muito mais apurado.

22:26

Da próxima vez que o mercado despejar uma nova metodologia revolucionária de trabalho,

22:31

exigindo adesão total, ou quando uma manchete brilhante

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anunciar a solução definitiva para a crise escolar baseada num slogan irresistível,

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a postura não vai ser mais de aceitação passiva.

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Vai ter aquele reflexo de perguntar o que está por trás.

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Exato. Haverá o reflexo imediato de perguntar qual é a metáfora central que está organizando essa ideia.

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Qual é o pressuposto oculto que eles querem que eu aceite sem discussão?

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Reconhecer o repertório de crenças que estão tentando manipular

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é a única forma de não sermos reféns de soluções fáceis para problemas complexos.

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E isso levanta uma questão final incontornável,

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especialmente considerando a velocidade absurda das mudanças atuais.

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A gente discutiu como Comênios olhou ao redor,

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viu a inovação da prensa tipográfica e a usou como a metáfora mestra

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para desenhar centenas de anos de educação padronizada.

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Foi a máquina da época dele que ditou a visão sobre a mente humana.

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Hoje, no século XXI, a nossa paisagem tecnológica é dominada por algoritmos preditivos,

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redes neurais e inteligências artificiais gerativas.

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Isso levanta uma questão importante.

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Se a gente conectar isso ao panorama das metáforas estruturais,

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se a tecnologia dominante de uma era, invariavelmente,

23:55

fornece o vocabulário e as metáforas para entendermos a nós mesmos.

24:00

Qual é a nova e invisível metáfora da máquina que já está sendo construída agora?

24:05

Como a ideia de uma mente algorítmica ou de um aprendizado de máquina

24:10

está silenciosamente reescrevendo os discursos, os slogans e as teorias

24:15

sobre como devemos ser ensinados e avaliados nos próximos anos?

24:19

Fica essa reflexão profunda para cada um.

24:22

Que metáforas estão formatando as nossas mentes hoje?

24:26

Muito obrigada a todos que nos acompanharam em mais essa análise detalhada.

24:31

Continuem questionando as verdades embaladas em slogans e até a próxima!

Atalhos de Teclado

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