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Pedagogia Brasileira entre Ciência e Retórica

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Olá, boas-vindas a mais uma das nossas análises detalhadas.

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É um prazer estar aqui de novo.

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Ah, este é aquele nosso espaço de sempre, né?

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Onde a gente pega pilhas de fontes complexas, aqueles artigos super densos, pesquisas acadêmicas e tenta extrair as pepitas de sabedoria mais valiosas.

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Exatamente, o ouro escondido no meio do jargão acadêmico.

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E a missão de hoje é explorar um tema que, olha, atua nos bastidores de absolutamente tudo o que molda a nossa sociedade.

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Sem exagero nenhum.

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Nós vamos falar sobre a própria educação.

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Ou, para ser mais específica, a gente vai investigar a crise de identidade histórica e o verdadeiro estatuto científico da pedagogia aqui no Brasil.

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É um vespeiro, mas um vespeiro necessário.

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E a nossa mesa hoje está cheia de material riquíssimo.

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De um lado, a gente tem uma dissertação de mestrado bem robusta do Flávio Rafael da Silva Brito, Acadêmicos Profundos, do renomado professor doutor Tarso Bonilha Mazzotti.

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Um nome de peso. Muito.

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Os textos dele são focados na epistemologia da educação e no que ele define como a virada retórica. É um privilégio de secar esse material hoje.

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E, para quem nos ouve, acho que vale destacar logo de cara o motivo pelo qual esse debate, que parece super acadêmico, afeta o dia a dia de todo mundo.

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Porque educação é o motor da sociedade.

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Mas a própria ciência que estuda a educação, que é a pedagogia, vive hoje um verdadeiro campo de batalha interno. Uma crise existencial, quase.

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E ao olhar para o ensino pelas lentes da retórica, que é o que o Mazzotti propõe, a gente passa a enxergar não só o que as escolas ensinam, mas a forma como a verdade educacional é negociada socialmente.

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Nossa, isso é poderoso. É libertador, na verdade.

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Compreender essa mecânica por trás dos discursos ajuda qualquer pessoa a não cair em armadilhas de, sabe, soluções mágicas, slogans vazios. E isso ajuda a desenvolver um olhar muito mais aguçado diante de qualquer nova teoria de aprendizagem que surja por aí no mercado.

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O material aponta para as raízes dessa crise de identidade lá em 1939. A dissertação menciona o decreto que criou a Faculdade Nacional de Filosofia. O famoso modelo 3 mais 1.

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O modelo 3 mais 1 foi uma tentativa inicial de estruturar o ensino superior no Brasil. Mas carregavam uma falha estrutural imensa desde o dia 1.

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Na prática, era assim. O estudante cursava 3 anos de um bacharelado intenso numa disciplina específica. Tipo, matemática pura, história. A pessoa ficava mergulhada em pesquisa e teoria, se formando como um cientista daquela área. Esse era o 3.

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Se essa pessoa quisesse dar aulas, ela adicionava esse mais 1, que era um ano extra focado puramente em didática.

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A formação separou drasticamente quem pensava ciência de quem ensinava. Lógica virou um apêndice. Um adendo apressado no final do curso. Totalmente desvinculado dos problemas reais e complexos do cotidiano escolar.

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Então a pessoa virava um especialista na sua matéria, mas recebia só um verniz ali sobre como o cérebro humano aprende ou como gerenciar 30 adolescentes numa sala de aula.

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O sistema tentou corrigir essas indefinições nas décadas seguintes, principalmente dentro do curso de pedagogia, criando múltiplas habilitações. Eles tentaram formar especialistas em administração escolar, supervisão, orientação.

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O estudante saía com o diploma que dizia que ele podia administrar, inspecionar, orientar, planejar, mas a base sólida sobre o que de fato é o fenômeno educativo se perdia nessa burocracia.

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Sim, uma ironia muito forte na era do educador Valmir Chagas, lá nas décadas de 60 e 70, que o pedagogo era um especialista em generalidades, ou, de forma ainda mais dura, um especialista em coisa nenhuma.

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E se conectarmos isso a um panorama maior, a gente chega num passado bem mais recente. As diretrizes curriculares nacionais de 2006.

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A identidade do pedagogo foi fundida, quase que exclusivamente, a docência nos anos iniciais do ensino fundamental. Foi uma redução ao chão da escola, apenas.

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O pragmatismo instrumental é focar quase exclusivamente no como fazer, e esquecer o porquê fazer. Só a técnica.

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Ao reduzir a pedagogia só a docência das séries iniciais, as diretrizes focaram em formar um bom aplicador de técnicas, o que funciona ali na hora para ensinar a ler, ensinar a contar. Mas e a teoria? Sumiu.

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O pedagogo deixou de ser visto como o pesquisador, o cientista, que investiga os fins da educação. Virou só um instrumento que aplica métodos.

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E é justamente nesse vácuo que entra o problema das chamadas ciências da educação. O ponto central do Mazzotti.

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Com a pedagogia perdendo, ou confundindo, esse status de ciência central, a educação passou a ser fatiada. A sociologia explica a escola, a psicologia explica a mente da criança, a economia estuda o dinheiro.

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O Mazzotti chama isso de dispersão epistemológica. Como a educação chegou a esse ponto de ter tantas teorias concorrentes tentando explicar a mesma coisa?

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Ele argumenta que essa fragmentação acontece porque não existe uma única ciência da educação que possa ser explicada só pela lógica formal. Lógica formal sendo aquela da matemática.

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Cálculo frio, exato. 2 mais 2 são 4, não importa o contexto, ela opera com variáveis vazias. Mas seres humanos não são variáveis vazias.

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Alunos e professores são agentes cheios de cultura, de emoções, de intenções políticas. Então, quando a gente tenta aplicar a lógica estrita da biologia ou da matemática pura na escola, a equação falha.

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É impossível criar uma lei universal da educação que funcione igualzinha numa escola rural no interior e numa escola de elite lá na Europa.

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E isso nos leva à virada retórica, que as fontes dizem que começou a ganhar força na década de 50. Isso muda completamente o jogo do conhecimento.

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Quando a nossa audiência ouve a palavra ciência, a gente imagina verdades absolutas caindo do céu. Regras como a lei da gravidade. Mas as premissas que formam as teorias educacionais não nascem da natureza. Elas nascem da linguagem.

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Essa é a virada de chave fundamental desse material. A lógica tenta provar verdades inquestionáveis. Mas a retórica lida com o que é preferível, o que é provável e socialmente aceito.

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O Mazzotti resgata a tradição clássica. Todo discurso educacional envolve três pilares inseparáveis. O famoso trio grego.

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O orador, que projeta uma imagem de credibilidade moral, o etos. O auditório, que recebe a mensagem e é movido por valores e emoções, que é o patos. E o argumento, a estrutura do argumento em si, o logos.

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Nós construímos verdades educacionais por meio da persuasão. A gente convence a sociedade de que um método é melhor que o outro, não porque é uma lei da física, mas porque atende aos desejos daquele grupo naquele momento.

17:01

E os textos trazem um exemplo histórico muito real disso. De como essa retórica não só descreve, mas dita a realidade social. O caso da semiprofissão.

17:49

A análise do Mazzotti sobre o sociólogo Amitai Etzioni, lá em 1961. Ele rotulou o ensino primário, a enfermagem e o serviço social, não como profissões completas. Ele chamou de semiprofissões.

18:18

Como a retórica da época construiu e justificou um rótulo que diminui o trabalho de tantas pessoas? A retórica muitas vezes opera mascarando preconceitos estruturais.

18:55

O rótulo de semiprofissão está intimamente ligado a uma divisão de gênero que foi naturalizada pela linguagem. Porque enfermagem, serviço social e ensino primário são áreas historicamente femininas.

19:29

A retórica social da época associou o trabalho de cuidar, de nutrir crianças a uma suposta natureza feminina, instintiva.

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