A Escola Não Ensina a Ciência Real

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Olá, para quem acompanha a gente, mais uma análise profunda.

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Eu estou muito animado para hoje,

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porque a nossa missão é basicamente questionar

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uma daquelas certezas absolutas que a gente carrega desde criança.

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Ah, aquelas certezas de sala de aula, né?

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Isso, exatamente. A pergunta que a gente vai fazer hoje é

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tipo, será que o que a gente aprende na escola

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como sendo ciência é realmente ciência?

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Ou será que é só uma versão super editada

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para atender às necessidades da sociedade?

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É uma premissa ousada, mas muito necessária.

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E o material que a gente tem para basear isso é fantástico.

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Sim, nós vamos mergulhar em um artigo bem detalhado do Tarso Mazzotti.

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O nome do texto é

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Ensino de Conceitos Científicos ou de Suas Representações Sociais.

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E a ideia aqui é um desvendar como teorias super complexas

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são transformadas nessas representações sociais.

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Que são basicamente versões simplificadas

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com propósitos muito específicos, sabe?

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Exato, e como isso impacta tudo.

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Desde o livro didático ali da oitava série

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até a forma como a gente entende o mundo hoje.

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Certo, vamos desempacotar isso.

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Queria que a gente começasse pelo conceito central do Sérgio Moscovici.

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Afinal, o que diabos é uma representação social na prática?

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Olha, a primeira coisa que a gente precisa tirar da frente

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é aquela ideia arrogante de que a sociedade distorce a ciência

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porque as pessoas não são inteligentes o suficiente.

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Aquela visão de que o público geral tem um déficit cognitivo, né?

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Isso, perfeito.

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O Moscovici fala que não tem nada a ver com falta de inteligência.

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É, na verdade, uma adaptação funcional.

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Pensa comigo.

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A ciência pura lá dentro do laboratório tem um rigor próprio.

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Ela busca a verdade e dó a quem doer.

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Sem se preocupar muito se aquilo vai ser útil amanhã de manhã.

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Exatamente.

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O cientista está focado no método.

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Mas quando esse conhecimento sai do laboratório e cai no público amplo,

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a pergunta que todo mundo faz é...

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Para que isso serve na minha vida?

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Isso.

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O que é fascinante aqui é que a representação social cria uma espécie de duplo.

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Um duplo ou uma sombra daquela ciência original.

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Uma sombra?

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Sim, porque a teoria pura é muito abstrata.

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É cheia de matemática, de variáveis.

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Então a sociedade pega isso e transforma em imagens figurativas,

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em esquemas que são fáceis de digerir.

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Entendi.

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É como se fosse empacotar a ideia para ela justamente.

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justificar as atitudes das pessoas e organizar a vida em grupo, né?

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Perfeitamente! A ciência vira uma ferramenta do dia a dia.

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Sabe que tem um exemplo prático no texto que me deixou chocado?

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É o caso do Instituto Santa Fé, lá nos Estados Unidos.

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Ah, esse caso de 1999 é maravilhoso!

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É bizarro! Eles são pioneiros mundiais na teoria do caos,

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ciência da complexidade, essas coisas que dão um nó na cabeça.

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E aí, hum, eles tiveram que contratar um cara chamado Ken Baik.

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Só que o Ken Baik não era físico.

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Não, ele era um especialista em retórica.

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Especialista em retórica.

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Eles contrataram o cara puramente para reescrever o site deles,

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porque a ciência que eles faziam era tão complexa e os conceitos eram tão fluidos

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que eles não conseguiam atrair financiador.

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É, o pessoal que dava o dinheiro olhava para aquilo e falava,

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hum, não estou entendendo nada.

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Eles precisavam de alguém para fabricar as metáforas certas.

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A instituição precisou criar a sua própria representação social

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para sobreviver e atrair um público maior.

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Basicamente, contrataram um tradutor para criar a tal da sombra que você mencionou.

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Mas olha, aqui é onde a coisa fica realmente interessante.

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O texto traz um exemplo gigantesco sobre isso.

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A teoria da evolução do Charles Darwin.

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Esse é o ponto de virada do artigo, com certeza.

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Porque, pensa bem, quem vai para a escola, hum,

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aprende que evolução se resume a uma coisa só.

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A seleção natural.

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A lei do mais forte.

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A adaptação ao ambiente.

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Fica parecendo que a evolução inteira é só esse operador.

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É, o que está em todos os livros didáticos, né?

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Mas a verdade histórica é bem diferente.

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Eu fico impressionada como isso foi apagado.

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Darwin, na verdade, ele inventou e bateu muito na tecla de um segundo mecanismo.

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A seleção sexual.

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Ele até escreveu um livro inteiro sobre isso, né?

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A origem do homem.

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Sim.

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E a seleção sexual é fascinante porque ela traz a ideia de comportamento intencional.

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De escolha.

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É a fêmea do pavão olhando para a cauda do macho e escolhendo ele pela espética.

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São pássaros escolhendo parceiros pelo canto ou avaliando quem constrói o melhor ninho.

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Tem agência, né?

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Tem uma vontade ali.

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Não é só o ambiente esmadando o bicho e vendo quem sobrevive.

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Exato.

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Tem cooperação, tem estética, tem a escolha.

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Ativamente direcionando o futuro da espécie e o próprio Darwin reclamava que o pessoal

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da época estava ignorando isso.

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isso. E aí a pergunta que não quer calar é por que diabos a sociedade pegou a

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seleção sexual e varreu para baixo do tapete? É porque não era útil, sabe? Quem

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sequestrou a teoria do Darwin no final do século 19 foi a metafísica do

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Herbert Spencer. Aquele cara do darwinismo social. Ele mesmo. Foi ele que

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cunhou a frase sobrevivência do mais apto. A Europa estava no meio da

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revolução industrial, capitalismo selvagem, imperialismo. Eles precisavam de

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uma justificativa ideológica pesada para aquela competição toda. Então a

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seleção natural, lida de um jeito bem superficial, caía como uma luva. Era a

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desculpa perfeita. Eles podiam olhar para a pobreza extrema ou para o racismo da

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época e dizer, olha, é a lei da natureza. Os mais fortes dominam, os mais fracos

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somem. A seleção sexual que falava de fêmea escolhendo parceiros e de

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cooperação não servia para essa narrativa. Caramba, eles apagaram metade

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da teoria biológica porque ela não ajudava a justificar a opressão. Isso é

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bizarro e o texto mostra que esse erro foi totalmente institucionalizado. Tem

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aquela história absurda do vestibular de biologia da UFIS? A da Universidade

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Federal do Espírito Santo, em 2004. Essa história é um clássico trágico.

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Trágico total. Tinha uma questão sobre girafas na prova. O enunciado contava uma

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historinha baseada em pesquisas reais, dizendo que os machos das girafas usam o

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pescoço longo para lutar. Eles dão golpes uns nos outros na disputa pelas fêmeas.

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Que é o exemplo mais puro e documentado de seleção sexual que você pode

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imaginar. Combate por acesso reprodutivo. Exato. Mas aí vinha a pegadinha. A questão

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pedia a alternativa que refletia a visão tradicional do Darwin. E o

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gabarito oficial dizia que a resposta correta era aquela velha história da

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seleção natural, de que o pescoço cresceu para alcançar as folhas mais

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altas. E ignorou totalmente o combate que estava no próprio enunciado. É a prova

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oficial forçando a representação social distorcida. Quem sabia a ciência real, a

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pesquisa moderna sobre a girafa, errava a questão. O aluno é obrigado a marcar a

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sombra da teoria. É o sistema dizendo, hum, não me vem a consciência atualizada, me

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devolvo o resumo do livro didático. Isso acontece muito.

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nas aulas de exatas também.

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O Masotti divide as ciências em construtivas e reconstrutivas

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para explicar isso.

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Dá uma detalhada nisso para a gente?

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Como é essa divisão?

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Olha, as ciências construtivas,

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tipo a matemática e a lógica,

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elas criam as próprias regras.

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Elas não precisam explicar uma árvore ou uma pedra.

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O matemático cria um axioma

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e trabalha num universo fechado, lógico e perfeito.

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Entendi.

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O jogo tem as próprias regras inventadas ali.

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Isso.

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Agora, as ciências reconstrutivas,

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tipo a física ou a biologia,

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a missão delas é explicar o mundo real, a natureza.

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E para fazer isso,

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elas não têm acesso direto à verdade absoluta.

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Elas precisam usar modelos,

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precisam construir metáforas baseadas na matemática

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para tentar descrever a realidade.

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A física usa uma metáfora

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para tentar traduzir o mundo, então.

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Exatamente.

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O problema é que, no ensino,

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a gente esquece que há só um modelo

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e passa a ensenhar como se fosse a verdade final do universo.

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Tem um estudo incrível citado no texto

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do Silva e Mazotti, de 2009.

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Ah, o estudo com os professores de física.

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66 professores entrevistados, né?

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Isso.

8:29

E eles perguntaram para esses professores

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se era possível ensinar eletricidade para um aluno

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antes de ensinar a mecânica clássica do Newton.

8:39

63 deles disseram que era absolutamente impossível.

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E o motivo não era nenhuma lei intransponível do cosmos, né?

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Não, o motivo era que inverter a ordem

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romperia a estrutura sagrada dos livros didáticos.

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Os professores ensinam a física

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como se ela fosse uma ciência construtiva,

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um sistema perfeitamente fechado.

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Como se o capítulo 2 dependesse

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da existência matemática do capítulo 1.

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É, ignorando completamente que, na vida real,

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os cientistas sabem que esses modelos têm limites.

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A mecânica de Newton não funciona bem

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para explicar coisas na escala do Einstein, sabe?

9:16

São modelos muitas vezes incompatíveis,

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mas a escola vende uma linha reta de raciocínio.

9:22

E essa mania de usar metáfora não para na física, né?

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A gente usa metáfora para entender até a nossa própria cabeça.

9:29

O lance da tabula rasa, por exemplo.

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A famosa folha de papel em branco

9:34

é a metáfora mais usada na educação.

9:37

A ideia de que a criança chega na escola com a mente vazia.

9:40

Mas isso não é um fato neurológico, certo?

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Longe disso.

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É puramente uma representação retórica.

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O artigo mostra que isso já foi usado lá atrás para justificar a ideia de purificar

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a humanidade, tipo, vamos ensinar do zero para voltar a um estado antes do pecado original.

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Caramba, tinha até uma pegada religiosa nisso.

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Tinha, sim, e hoje os educadores modernos viraram o jogo.

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Eles dizem que a cabeça do aluno não é uma folha em branco, mas que está cheia de

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noções erradas, os tais dos obstáculos cognitivos.

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Então mudou a metáfora, mas continua sendo uma desculpa pedagógica.

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Perfeito.

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É uma imagem criada para justificar a intervenção do professor.

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Olha, eu preciso destruir esses obstáculos e colocar a ciência verdadeira aí dentro.

10:28

Então o que tudo isso significa, no fim das contas?

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Se a escola só cobra essas metáforas, se os vestibulares punem quem sabe a ciência

10:37

de ponta e premiam quem decora o modelo simplificado, a escola não está ensinando ciência.

10:43

Ela está doutrinando, está fazendo propaganda de imagens congeladas.

10:47

Se conectarmos isso a um cenário mais amplo, a visão de um autor chamado Roqueplo, que

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o texto cita, entra matando.

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Ele diz que o progresso técnico gerou uma tecnocracia, uma elite competitiva que detém

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o conhecimento real.

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E essa elite não quer dividir o poder de verdade, né?

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Nem um pouco.

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Imagina ensinar a todo mundo a questionar, a duvidar dos modelos, a pensar como cientistas

11:13

de verdade.

11:14

Isso ameaça o sistema.

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Então a escola vira só uma escada, uma máquina de triagem para o mercado de trabalho

11:21

baseada em exames conteudistas.

11:23

Quem repete melhor a metáfora ganha o emprego.

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É um funil de obediência.

11:28

É isso aí.

11:29

E isso levanta uma questão importante, né?

11:32

Como a gente resolve essa bagunça?

11:35

Ensinando o bendito do método científico, né?

11:38

Em vez de mandar decorar a fórmula, ensinar a atitude cética, observação, análise

11:42

crítica.

11:43

Sim, essa seria a solução ideal, mas o texto deixa claro o tamanho desse muro.

11:48

A pressão é brutal.

11:50

Pressão dos pais, da sociedade, do governo, dos vestibulares.

11:54

A engrenagem inteira exige que o aluno decore as representações prontas.

11:59

É o pronto para pensar que o autor fala, né?

12:02

Se um professor tentar ensinar o método e fazer o aluno questionar tudo, no fim do ano

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esse aluno vai bombar no exame oficial.

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retroalimenta. Fazendo uma síntese para quem está ouvindo a gente, a nossa jornada hoje

12:20

desconstruiu muita coisa. A gente viu que o que é consumido como conhecimento científico

12:25

pela sociedade, seja a lei do mais forte lá do Darwin ou as fórmulas perfeitas da física,

12:31

é na grande maioria das vezes uma tradução cheia de intenções, uma sombra da ciência,

12:37

isso uma versão editada, feita para manter a engrenagem rodando ou justificar uma ideologia

12:43

e não para nos iluminar com fatos. E entender o porquê de se importar na vida real de quem

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está acompanhando a gente é fundamental. A gente vive numa era onde a informação

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não para, recebemos manchetes o dia inteiro dizendo que tal coisa é cientificamente comprovada.

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O famoso selo de qualidade. E ser bem informado hoje não é só decorar esses fatos, é ter

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a malícia de entender a retórica. Quem desenhou essa representação social? Por que empacotaram

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essa informação desse jeito? Para que isso serve no fim das contas? Separar a ciência

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real da representação social dela é o único escudo contra a doutrinação, né?

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Com toda certeza. É o que te dá autonomia intelectual para valer.

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Para a gente encerrar, eu quero deixar no ar um pensamento provocativo, derivado do que

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a gente discutiu aqui sobre o Darwin. Se no século XIX a teoria de uma das mentes mais

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brilhantes da biologia foi moldada, apagada e reescrita pela sociedade só para justificar

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a competição e o sistema da época. E foi reescrita com sucesso, bom lembrar.

13:48

Com muito sucesso. Fica a reflexão para quem acompanha a gente hoje. Quais daquelas nossas

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certezas absolutas que a gente recebe agora sobre temas super modernos, tipo a inteligência

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artificial ou as mudanças climáticas? Quais delas não chegaram até nós apenas

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como metáforas convenientes? Metáforas desenhadas para nos fazer agir

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ou consumir de um jeito específico. Exatamente. O que é a ciência pura e dura

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nesses temas? E o que é só o duplo social operando nos bastidores? Queria agradecer

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demais a presença de quem embarcou com a gente nesse mergulho pelas fontes hoje.

14:28

Foi excelente debater tudo isso e que todo mundo continue cultivando a dúvida, porque

14:33

ela é o verdadeiro motor do conhecimento. Até a próxima.

14:37

Um grande abraço para todo mundo e continuem questionando. Até lá.

Atalhos de Teclado

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